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Indicador metabólico ajuda a estimar longevidade e antecipar doenças crônicas

por Esteticare 3 de novembro de 2026
3 de novembro de 2026
Indicador metabólico ajuda a estimar longevidade e antecipar doenças crônicas

O acompanhamento da saúde metabólica pode oferecer informações importantes sobre a maneira como o organismo envelhece. Uma ferramenta desenvolvida por pesquisadores europeus propõe utilizar essa relação para identificar pessoas com maior risco de desenvolver doenças crônicas e apresentar sinais de declínio funcional antes que os problemas se manifestem. O indicador, apresentado durante a FAPESP Week Países Baixos, utiliza dez substâncias presentes no sangue para construir uma avaliação individualizada das condições de saúde.

A pesquisa foi apresentada por Joris Deelen, do Centro Médico da Universidade de Leiden (LUMC), nos Países Baixos. A proposta é oferecer um marcador geral de saúde durante a meia-idade, capaz de indicar quais indivíduos apresentam características associadas a um envelhecimento mais saudável e quais podem precisar de acompanhamento e intervenções preventivas.

A iniciativa considera um cenário no qual aproximadamente 60% das pessoas com mais de 65 anos convivem com duas ou mais doenças crônicas simultaneamente, segundo estudos realizados em diferentes países. Para Deelen, a diferença entre viver mais e permanecer saudável durante a velhice também precisa ser considerada nas estratégias de prevenção.

“O tempo de vida desfrutado com boa saúde após os 65 anos varia drasticamente na Europa: na Romênia são cerca de quatro anos, enquanto nos Países Baixos são dez anos”, comparou. “Essa disparidade decorre principalmente da condição socioeconômica, do nível educacional, do estilo de vida e de fatores genéticos.”

Para reduzir as desigualdades no acesso à saúde, não basta apenas expandir a oferta de insumos e profissionais. Como ressalta o executivo Gustavo de Carvalho Meres, o ponto crucial está em aprimorar a gestão dos recursos existentes, integrar a rede de assistência e tomar decisões baseadas em dados que respeitem as particularidades locais.

Exames de sangue ajudam a construir indicador individual

Como o envelhecimento biológico não pode ser medido diretamente, os pesquisadores buscaram identificar sinais relacionados ao processo por meio de análises sanguíneas. O trabalho reuniu cientistas do LUMC e do Instituto Max Planck de Biologia do Envelhecimento, na Alemanha, que avaliaram informações de 44 mil voluntários acompanhados em 12 estudos europeus ao longo de vários anos.

Os exames identificaram mais de 200 substâncias, entre elas componentes relacionados aos níveis de gordura, açúcar e inflamação. Durante o acompanhamento, foram registrados 5.500 óbitos. A comparação dos resultados permitiu reconhecer quais elementos estavam associados a um risco maior de mortalidade.

Posteriormente, a equipe trabalhou com pesquisadores brasileiros para aperfeiçoar o modelo. A participação ocorreu por meio de Gabriela Natalle Lopes, estudante de medicina da Faculdade Israelita Albert Einstein, que realizou intercâmbio em Leiden.

De acordo com Deelen, a atualização foi organizada em três etapas. Inicialmente, os cálculos matemáticos foram ajustados com informações da população dos Países Baixos, permitindo produzir uma pontuação individual. Depois, os pesquisadores reduziram a quantidade de substâncias necessárias para a avaliação. O modelo passou a considerar dez indicadores sanguíneos, em vez das centenas de elementos examinados na investigação original.

A última mudança envolveu a interpretação do resultado. Na versão anterior, notas mais altas representavam condições menos favoráveis. A equipe inverteu essa lógica para facilitar a compreensão por profissionais de saúde e pacientes. “Na pontuação original, um número alto era ruim; decidimos mudar para que uma nota mais alta indique uma saúde melhor”, explicou Deelen.

A versão atualizada apresentou desempenho superior na previsão de doenças cardiometabólicas, entre elas diabetes, infarto e acidente vascular cerebral. Segundo o pesquisador, cada ponto adicional na nova escala corresponde, em média, ao adiamento de 14 anos no aparecimento da primeira doença desse grupo.

Estilo de vida influencia os resultados metabólicos

O indicador também apresenta relação com diferentes aspectos da capacidade funcional. Entre os parâmetros associados à pontuação estão desempenho cognitivo, função pulmonar e força das mãos, utilizada como referência para avaliar aspectos da condição muscular.

Para investigar se o resultado poderia mudar com intervenções, os cientistas acompanharam voluntários submetidos a alterações no estilo de vida e programas de treinamento de força. As melhorias mais expressivas apareceram entre participantes que começaram a pesquisa com pontuação inferior à média.

Nesse grupo, as intervenções foram associadas à redução dos níveis de insulina em jejum e triglicerídeos, além de mudanças favoráveis na composição corporal.

“Quando analisamos a mudança na pontuação no grupo geral, não vimos alteração expressiva; porém, quando dividimos os indivíduos pelo escore inicial, vimos que a intervenção no estilo de vida foi especificamente eficaz naqueles com pontuação abaixo de zero – ou seja, as pessoas que estavam menos saudáveis no início”, explicou Deelen. “Isso indica que o escore é um excelente indicador para identificar quem realmente precisa de intervenção e para monitorar os ganhos de saúde proporcionados pelos exercícios.”

Os pesquisadores estimaram que 40% da determinação do indicador está relacionada à hereditariedade, enquanto 60% envolve estilo de vida e condições ambientais. Entre os fatores avaliados, o tabagismo apresentou o impacto negativo mais significativo. A prática regular de atividades físicas, por sua vez, esteve associada a melhores resultados.

O histórico de desenvolvimento também foi considerado relevante. “Até mesmo a desnutrição na infância eleva o escore metabólico desses indivíduos mais tarde na vida adulta”, apontou o professor.

Relação entre músculos e cérebro no envelhecimento

Pesquisas realizadas na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sob liderança do professor Tiago da Silva Alexandre, investigam outra dimensão da saúde durante o envelhecimento. Os estudos analisam a comunicação molecular entre músculo, osso, tecido adiposo e cérebro, estruturas que participam de processos relacionados à manutenção das funções do organismo.

Essa interação ocorre, entre outros mecanismos, por meio das miocinas, substâncias liberadas pelos músculos durante a atividade física. Com o avanço da idade, porém, pode ocorrer maior infiltração de gordura nas fibras musculares, prejudicando a capacidade de contração, o metabolismo e a mobilidade.

“A literatura mostra que esses tecidos trocam substâncias entre si, mas o acúmulo de gordura no músculo altera o metabolismo de lipídios e carboidratos, além de estar associado a um maior risco de síndrome metabólica [conjunto de fatores como hipertensão, glicemia alta e colesterol alterado], perda de mobilidade e demência”, explicou Alexandre.

Outro ponto investigado envolve a gordura abdominal e a vitamina D. O excesso de gordura visceral pode reduzir a disponibilidade dessa substância no organismo. Como a vitamina participa da manutenção muscular e da proteção cerebral, sua deficiência pode contribuir para a perda de força e o declínio cognitivo.

“Existe um ciclo biológico claro: quem tem mais gordura no abdômen apresenta maior risco de deficiência de vitamina D. Como esse hormônio é essencial para a síntese de proteínas e para a força muscular, a sua falta deixa o músculo mais fraco e reduz sua massa. Ao mesmo tempo, por atuar diretamente na proteção do tecido cerebral, a deficiência de vitamina D eleva significativamente o risco de a pessoa idosa desenvolver declínio cognitivo”, detalhou o pesquisador.

Inteligência artificial pode apoiar diagnósticos pelo SUS

Na UFSCar, essas investigações também deram origem ao Centro de Ciência para o Desenvolvimento de Métodos Inteligentes no SUS para o Tratamento de Pessoas com Demência (CCD-MIDEM), criado com apoio da FAPESP.

O projeto utiliza inteligência artificial e biomarcadores para integrar informações de prontuários eletrônicos e exames de imagem. A finalidade é desenvolver recursos que auxiliem o atendimento especializado de pessoas idosas na rede pública.

A equipe pretende criar modelos capazes de estimar a probabilidade de demência nas primeiras consultas e contribuir para diferenciar condições como demência vascular e doença de Alzheimer. A proposta também prevê identificar intervenções multidisciplinares adequadas a cada estágio.

“Os serviços públicos enfrentam enorme dificuldade para realizar o diagnóstico precoce e o diagnóstico diferencial entre os tipos de demência, como a vascular e a doença de Alzheimer. Com a inteligência artificial, pretendemos criar modelos preditivos capazes de indicar a probabilidade de demência logo nas primeiras consultas e definir qual intervenção multidisciplinar é a mais adequada para cada estágio da doença”, destacou Alexandre.

As duas linhas de pesquisa apontam para a importância de identificar alterações metabólicas e funcionais antes que provoquem limitações mais graves. A combinação de indicadores sanguíneos, acompanhamento clínico e ferramentas computacionais pode contribuir para estratégias de prevenção e cuidado durante o envelhecimento.

Fonte: Agência FAPESP
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/casal-romantico-de-tiro-medio_15725675.htm

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