A chamada “dose da beleza” ganhou espaço nas redes sociais como uma estratégia para melhorar a aparência da pele. A proposta consiste no uso de uma ou duas cápsulas de isotretinoína por semana, com a promessa de controlar a oleosidade, diminuir espinhas pontuais e deixar a superfície cutânea mais lisa.
Conhecida pelo nome comercial Roacutan, a isotretinoína é um medicamento de uso oral que exige prescrição e acompanhamento médico. Embora seus efeitos sobre as glândulas sebáceas possam produzir mudanças percebidas como estéticas, o uso para rejuvenescimento não possui indicação formal.
“Para a finalidade estética de rejuvenescimento, não existe uma recomendação formal”, afirma a dermatologista Marcela da Costa Pereira Cestari, do Hospital Sírio-Libanês.
Isotretinoína tem ação diferente em cada tratamento
A isotretinoína reduz a atividade das glândulas sebáceas e estimula a renovação da pele. Por isso, é utilizada no tratamento da acne e pode proporcionar redução da oleosidade e melhora da textura cutânea.
No tratamento da acne, entretanto, a dose não é definida de maneira aleatória. O dermatologista calcula a quantidade do medicamento conforme o peso do paciente, além de estabelecer a duração do tratamento e a dose acumulada.
Na “dose da beleza”, a proposta é diferente. As quantidades são menores e costumam ser tomadas uma ou duas vezes por semana, sem o cálculo por peso utilizado no tratamento convencional da acne.
O uso também pode ser considerado off-label, expressão usada quando um medicamento é utilizado fora das indicações previstas em bula. Doses baixas de isotretinoína podem ser empregadas por médicos em algumas situações específicas, como acne resistente, rosácea, dermatite seborreica e acne da mulher adulta. Nesses casos, porém, há uma condição dermatológica que justifica a avaliação e o tratamento.
Segundo Cestari, estudos que compararam a isotretinoína oral em baixa dose com a tretinoína tópica, aplicada diretamente na pele, não demonstraram superioridade do medicamento oral na produção de colágeno. O principal diferencial da isotretinoína aparece no controle da oleosidade.
Efeito sobre a pele não é permanente
A melhora provocada pela isotretinoína pode ser percebida na aparência da pele. A redução da produção de sebo, o efeito anti-inflamatório e a ação sobre a camada mais externa contribuem para uma superfície mais lisa. Algumas lesões de acne também podem deixar de surgir durante o tratamento.
O efeito, entretanto, está relacionado ao período de utilização. As doses menores adotadas na chamada “dose da beleza” não seguem o mesmo protocolo empregado para o tratamento da acne e não garantem uma remissão prolongada.
“A dose da beleza não traz um resultado permanente. Os efeitos aparecem no período de uso e, após a suspensão, a pele tende a voltar ao que era”, explica a dermatologista.
A busca por manter esse resultado pode levar algumas pessoas a prolongar o uso ou alternar períodos de consumo e pausa. Segundo a médica, ainda não existem estudos suficientes para determinar a segurança dessa exposição durante anos, inclusive em relação aos possíveis efeitos cumulativos sobre fígado e colesterol.
Dose baixa também exige cuidados
A quantidade utilizada interfere em parte dos efeitos adversos da isotretinoína. Doses maiores aumentam a carga processada pelo fígado e podem elevar o risco de determinadas reações. Isso, porém, não significa que uma dose baixa elimine os riscos associados ao medicamento.
Entre os possíveis efeitos estão ressecamento da pele e das mucosas, eczema, sangramento nasal e irritação nos olhos. Também podem ocorrer alterações nas enzimas hepáticas e nos níveis de colesterol durante o tratamento.
Há ainda um risco que permanece mesmo em quantidades menores. A isotretinoína é teratogênica e pode provocar malformações no feto.
“O único efeito colateral que não diminui com uma dose mais baixa é o risco de malformação caso a paciente engravide”, alerta Marcela.
Mulheres com possibilidade de gestação precisam adotar métodos contraceptivos e realizar testes de gravidez antes e durante o tratamento. A médica também recomenda avaliação ginecológica, contracepção adequada e uso de preservativo.
O acompanhamento inclui exames de sangue, entre eles hemograma, avaliação das funções hepática e renal e análise dos níveis de colesterol e triglicérides. De acordo com a dermatologista, esse controle costuma ser realizado a cada um ou dois meses durante o uso.
Tratamentos tópicos podem ser alternativas
Para quem deseja controlar a oleosidade, melhorar a textura da pele ou tratar espinhas isoladas, existem alternativas aplicadas diretamente na pele. Retinoides tópicos, como tretinoína e adapaleno, são utilizados para estimular a renovação celular e tratar a acne.
Sabonetes, tônicos e cremes também podem fazer parte da rotina de cuidados, de acordo com as características de cada pele. A indicação deve considerar avaliação dermatológica, pois esses produtos também podem causar irritação e apresentam contraindicações.
A principal diferença é que o tratamento tópico não envolve a exposição sistêmica associada à isotretinoína oral. Por isso, a escolha entre as opções deve levar em conta o objetivo do paciente e as condições da pele.
Para Marcela, a popularização da “dose da beleza” nas redes sociais pode transmitir a ideia de que a isotretinoína é um recurso simples para preservar determinada aparência. O uso contínuo sem uma doença que justifique o tratamento preocupa diante da falta de informações sobre os efeitos de uma exposição prolongada.
“O remédio é muito bom quando está bem indicado e bem utilizado. O uso contínuo só para manter certo aspecto da pele preocupa, porque ainda não sabemos quais malefícios ele pode trazer no futuro”, diz.
Fonte: Portal Terra
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/jovem-e-linda-mulher-aplicando-oleo-facial-na-bochecha_19603192.htm