A ascensão da K-Beauty deixou de ser uma tendência restrita a grupos apaixonados por cosméticos asiáticos para se tornar um movimento consolidado no mercado de beleza. Nos últimos anos, produtos coreanos passaram a ocupar espaço nas vitrines brasileiras, impulsionados por fórmulas inovadoras, redes sociais e pela influência crescente do entretenimento sul-coreano.
O interesse começou a ganhar força ainda na década passada, quando BB creams e máscaras faciais em tecido chegaram aos primeiros nichos especializados em skincare. A partir de 2015, no entanto, o segmento passou a atingir o grande público, com varejistas ampliando a oferta de produtos inspirados na rotina coreana de cuidados com a pele.
Ao mesmo tempo, a expansão mundial do K-Pop e dos K-Dramas ajudou a transformar a Coreia do Sul em referência estética. A aparência de artistas e atores, frequentemente associada a uma pele uniforme, luminosa e natural, passou a influenciar hábitos de consumo em diversos países, inclusive no Brasil.
À CNN Brasil, Jimmy Lee, diretor da KS Cosméticos, afirma que o fenômeno vai além do entretenimento e impacta diretamente o comportamento do consumidor. “Esses conteúdos exportam não apenas entretenimento, mas também padrões estéticos e hábitos culturais. A pele saudável, luminosa e natural vista em idols e atores gera desejo aspiracional, enquanto a repetição desses visuais em diferentes plataformas acelera a normalização das rotinas coreanas”.
Segundo o executivo, a popularização do conceito de “glass skin”, expressão usada para definir uma pele extremamente viçosa e uniforme, ganhou impulso principalmente nas redes sociais. “No Brasil, esse movimento ganha ainda mais força no ambiente digital, onde influenciadores funcionam como tradutores culturais”.
Skincare preventivo conquista geração Z
Uma das principais diferenças entre a K-Beauty e o mercado ocidental está na forma como os cuidados com a pele são apresentados ao consumidor. Enquanto marcas tradicionais focaram durante décadas em produtos corretivos e maquiagens de alta cobertura, a rotina coreana prioriza prevenção e manutenção da saúde da pele.
“A K-beauty rompe com a lógica corretiva ao priorizar a prevenção e o cuidado contínuo da pele”, afirma Lee.
Essa mudança de mentalidade encontrou terreno fértil entre consumidores mais jovens, especialmente integrantes das gerações Z e Alpha. Para esse público, o skincare deixou de ser apenas uma obrigação estética e passou a representar um momento de autocuidado associado ao bem-estar.
“O consumo deixa de ser reativo para ser proativo, o que impulsiona rotinas mais consistentes”, acrescenta o diretor.
O avanço desse comportamento também alterou a forma como as marcas se comunicam. Nos últimos anos, empresas do setor passaram a investir em campanhas mais inclusivas, linguagem educativa e embalagens neutras, tentando se afastar de padrões tradicionais ligados ao gênero.
“As marcas coreanas adotam uma comunicação mais inclusiva, minimalista e educativa, evitando estereótipos de gênero”, pontua Lee.
O TikTok se tornou uma das principais vitrines desse movimento. Vídeos rápidos com demonstrações de rotina, testes de textura e resultados visuais ajudaram a popularizar produtos antes considerados nichados. Embalagens compactas e fórmulas multifuncionais também passaram a ganhar espaço entre consumidores que buscam praticidade.
Nesse cenário, cresce o conceito de “skip-care”, tendência que propõe rotinas mais enxutas sem abrir mão da eficácia. A proposta surge como resposta às tradicionais sequências de dez etapas associadas ao skincare coreano.
“O skip-care não é a morte do ritual coreano, é uma otimização. O consumidor global quer menos etapas, mas não aceita perder resultado. A rotina encurta, mas a performance aumenta”, defende o executivo.
Exportações batem recorde e setor aposta em tecnologia
O crescimento global da K-Beauty também aparece nos números do setor. Segundo Lee, a Coreia do Sul alcançou em 2025 um recorde histórico de US$ 11,4 bilhões em exportações de cosméticos.
Parte desse sucesso está ligada à combinação entre ingredientes tradicionais e pesquisa tecnológica. Ativos como ginseng e mucina de caracol, frequentemente associados à cosmética coreana, passaram a ser utilizados com abordagem científica voltada à absorção, estabilidade e segurança das fórmulas.
“A força da K-Beauty está na interseção: não usamos receitas ancestrais por nostalgia, mas como ponto de partida científico para melhorar absorção e segurança”, explica.
A experiência sensorial também se tornou um diferencial importante. Produtos como toner pads, jelly mists e hidratantes com texturas leves ajudam a criar uma relação mais intuitiva com o skincare.
“Quanto mais agradável e intuitiva for a aplicação, maior a chance de fidelização”, diz Lee.
Para os próximos anos, a expectativa do setor é avançar na hiperpersonalização. A previsão é de que tecnologias de inteligência artificial passem a recomendar rotinas específicas com base nas características individuais da pele.
Ao mesmo tempo, a indústria enfrenta pressão crescente por soluções mais sustentáveis. “O ponto crítico é desenvolver fórmulas limpas e reduzir embalagens sem desacelerar o ritmo de inovação”, admite o executivo.
Apesar da expansão do mercado, empresas coreanas ainda encontram obstáculos para ampliar presença no Brasil. Entre os principais desafios estão os processos regulatórios e a adaptação dos produtos ao clima tropical e à diversidade da pele brasileira.
“A aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pode ser demorada, especialmente para ativos menos convencionais”, alerta Lee.
Mesmo diante dessas barreiras, a expectativa é de continuidade no crescimento do segmento, apoiado na combinação entre tecnologia, bem-estar e consumo consciente.
Fonte: CNN Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/mulher-de-tiro-medio-usando-mascara-facial_44992308.htm