A ideia de que o ano começa depois do Carnaval ainda faz sentido para muita gente. O fim da folia costuma marcar o momento de reorganizar a rotina e resgatar objetivos deixados de lado nas primeiras semanas de janeiro. Entre eles, a prática regular de exercícios físicos aparece com frequência, seja por questões de saúde, bem-estar ou disposição no dia a dia.
Datas simbólicas funcionam como gatilhos de motivação. Assim como a virada do calendário, o Carnaval cria um marco psicológico que ajuda a separar o descanso da retomada. No Brasil, esse intervalo acaba servindo como uma espécie de licença informal para adiar decisões. Passado o feriado, o corpo cobra movimento, mas o desafio é transformar a boa intenção em constância.
Para entender como estruturar esse retorno de forma sustentável, a reportagem ouviu o profissional de educação física Cacá Ferreira, gerente técnico corporativo da Cia Athletica. Segundo ele, criar uma rotina duradoura passa menos por força de vontade e mais por estratégia.
Metas menores ajudam a evitar frustração
Um erro comum de quem tenta retomar os exercícios é estabelecer objetivos ambiciosos demais logo no início. A distância entre a realidade atual e a meta final pode gerar desânimo precoce. Para quem passou semanas sem treinar, planejar cinco idas à academia por semana costuma ser inviável.
A orientação é começar com metas possíveis e de curto prazo. Duas sessões semanais, por exemplo, já representam uma mudança concreta e mensurável. Também vale priorizar objetivos que possam ser acompanhados ao longo da semana, e não apenas ao fim do ano. Marcar cada treino concluído tende a gerar mais satisfação do que esperar meses para avaliar o resultado.
Progressão gradual protege o corpo e a motivação
Outro ponto central é respeitar o ritmo de retomada. Tentar compensar o tempo parado com treinos intensos aumenta o risco de lesões e dificulta a adesão. O ideal é iniciar com exercícios leves ou moderados e avançar aos poucos, conforme o corpo responde.
Escolher cargas, distâncias ou intensidades que transmitam segurança ajuda a construir confiança. Mesmo terminar o treino com a sensação de que seria possível fazer um pouco mais pode ser positivo nesse momento inicial. “Assim, você tem certeza de que está pisando em chão firme e, na próxima vez, pode fazer um ajuste. Isso se chama princípio de progressão”, afirma Cacá.
Força e mobilidade criam base para evoluir
No começo, priorizar o desenvolvimento da força e da mobilidade facilita ganhos futuros. Essas capacidades funcionam como base para outras habilidades físicas, como potência, velocidade e coordenação. Musculação, treinamento funcional e aulas de ginástica localizada ajudam no fortalecimento muscular.
Já a mobilidade pode ser trabalhada com pilates, yoga e alongamentos orientados. Em paralelo, atividades aeróbicas, como caminhar, correr, nadar ou pedalar, contribuem para melhorar a capacidade cardiorrespiratória e a resistência. Segundo o especialista, focar esses pilares prepara o corpo para desafios mais complexos adiante.
Entender o próprio comportamento faz diferença
Nem todo mundo se motiva da mesma forma. Há quem dependa da interação social para manter a regularidade, enquanto outros preferem treinos mais reservados. Identificar esse perfil ajuda a escolher a modalidade e o formato mais adequados.
Para pessoas mais sociáveis, aulas coletivas, grupos de corrida ou treinos com amigos costumam aumentar o engajamento. “Convide os amigos que estavam junto no Carnaval para treinar junto. Isso vai energizar a pessoa”, diz Cacá. Já quem busca segurança e orientação individual pode se beneficiar do acompanhamento de um personal trainer, mesmo que de forma pontual.
O custo desse serviço nem sempre é acessível, mas o uso estratégico, como algumas sessões no início da retomada, pode ajudar a criar confiança e ritmo. O mais importante é testar possibilidades e observar o que gera mais prazer.
Nem toda tendência combina com você
A popularidade de uma modalidade não significa que ela seja adequada para todos. Crossfit, corrida de rua ou aulas da moda podem servir de inspiração, mas a escolha deve considerar preferências pessoais e conforto. Para quem está começando, o fator decisivo é encontrar uma atividade que desperte vontade de voltar na semana seguinte.
Natação, musculação, esportes coletivos ou práticas mais suaves oferecem caminhos diferentes para o mesmo objetivo. Ao alinhar expectativa, realidade e gosto pessoal, a chance de transformar o pós-Carnaval em um novo começo aumenta de forma concreta.
Fonte: Folha de São Paulo
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