A estética conhecida como “heroin chic”, marcada por corpos extremamente magros, maquiagem borrada, aparência cansada e referências à cultura das drogas, voltou a circular nas redes sociais, editoriais de moda e tendências de beleza. O retorno do tema acontece justamente em um momento em que movimentos como body positive e neutralidade corporal ganharam espaço no debate público.
Popularizado nos anos 1990, o “heroin chic” ficou associado a modelos como Kate Moss, Jaime King e Jodie Kidd. O visual também foi impulsionado por fotógrafos como Corinne Day e Davide Sorrenti, que ajudaram a transformar a estética em símbolo de uma geração.
Na época, o estilo surgiu como contraponto ao excesso visual dos anos 1980. Em vez das cores vibrantes e da ostentação daquela década, o “heroin chic” apostava em uma aparência mais melancólica, imperfeita e próxima da ideia de desgaste emocional. O cenário cultural também favorecia esse imaginário. Filmes como Pulp Fiction, The Basketball Diaries e Trainspotting colocavam drogas e personagens autodestrutivos no centro da narrativa, enquanto bandas como Nirvana, Pearl Jam e Hole consolidavam a estética grunge no mainstream.
Críticas mudaram os rumos da moda
O debate em torno do “heroin chic” ganhou força após a morte de Davide Sorrenti, em 1997, vítima de overdose de heroína aos 22 anos. A mãe do fotógrafo, Francesca Sorrenti, publicou uma carta criticando a indústria da moda por romantizar o consumo de drogas e transformar o vício em um elemento aspiracional.
A repercussão ultrapassou o universo fashion. O então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, criticou publicamente campanhas e editoriais que associavam fragilidade física e dependência química a algo “cool” ou desejável.
Com a pressão crescente, o mercado da moda passou a adotar outra imagem de beleza. A brasileira Gisele Bündchen tornou-se símbolo de um padrão considerado mais saudável naquele momento. Ainda assim, especialistas lembram que a valorização da magreza nunca deixou de existir. A diferença é que ela passou a aparecer em versões menos explícitas.
Durante os anos 2000, tendências como Y2K, indie sleaze e estética twee continuaram reforçando corpos muito magros como referência aspiracional. Celebridades como Paris Hilton e Lindsay Lohan ajudaram a consolidar esse imaginário, frequentemente associado à cultura das festas, da vida noturna e das “barrigas negativas”.
Redes sociais ampliam os códigos da estética
Especialistas em comportamento apontam que o contexto pós-pandemia ajudou a reativar códigos ligados ao “heroin chic”. A geração Z atravessou parte da juventude em isolamento, enfrentando crises econômicas, insegurança política e aumento das discussões sobre saúde mental.
Segundo analistas de tendências, esse cenário alimentou uma visão mais pessimista do futuro, refletida em comportamentos associados ao excesso, ao escapismo e à ideia de viver sem pensar tanto nas consequências. A estética melancólica voltou a ganhar força nesse ambiente digital.
Um dos exemplos mais citados é o retorno do cigarro como acessório de estilo, além da popularização dos vapes entre jovens. Séries como Euphoria também contribuíram para recolocar temas como drogas, dependência e autodestruição no centro da cultura pop contemporânea.
Na moda, a volta das calças de cintura baixa e das minissaias reforçou novamente a valorização de silhuetas extremamente magras. Na maquiagem, cresceram tendências que simulam aparência cansada, olhos borrados e olheiras marcadas. Tutoriais ensinando a criar “dark circles makeup” acumulam milhões de visualizações em plataformas como TikTok.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam para o crescimento de conteúdos que incentivam transtornos alimentares nas redes sociais. Um estudo publicado pela revista Pediatrics mostrou que as hospitalizações de adolescentes por anorexia e bulimia mais do que dobraram nos Estados Unidos durante o primeiro ano da pandemia.
Movimento body positive dificulta retorno ao mainstream
Apesar da reaproximação estética com elementos dos anos 1990, analistas acreditam que o “heroin chic” dificilmente retomará o mesmo espaço cultural que teve há três décadas.
A principal diferença estaria no acesso mais amplo às discussões sobre saúde mental, pressão estética e gordofobia. A geração Z convive diariamente com debates sobre aceitação corporal, diversidade e padrões irreais de beleza, especialmente nas redes sociais.
Outro ponto destacado é a forma como produções atuais tratam temas sensíveis. Em Euphoria, por exemplo, o vício da personagem Rue não aparece apenas como estética visual, mas também como um problema destrutivo, com consequências explícitas.
Influenciadores e criadores de conteúdo também passaram a questionar a ideia de transformar corpos em tendência. Nas redes sociais, parte das críticas ao retorno do “heroin chic” aponta justamente para a tentativa de usar discursos ligados ao body positive para legitimar a exaltação de traços físicos extremamente magros.
A influenciadora Dora Figueiredo comentou o tema em vídeos publicados nas redes sociais, criticando a narrativa de que “ser magro virou opressão”. Segundo ela, a indústria da beleza continua promovendo procedimentos estéticos e produtos voltados ao emagrecimento, o que demonstra que padrões corporais restritivos permanecem fortes.
No centro do debate está uma discussão mais ampla: enquanto corpos continuarem sendo tratados como tendência estética, padrões excludentes seguirão reaparecendo em diferentes formatos. É justamente por isso que especialistas defendem o fortalecimento da neutralidade corporal, conceito que propõe diminuir a centralidade da aparência física na construção da autoestima e da identidade social.
Fonte: Elle
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/jovem-mulher-moderna-com-o-olho-fechado-inclinando-a-cabeca-na-mao_3272238.htm