As chamadas “tradwives”, mulheres que defendem uma divisão tradicional de papéis entre homens e mulheres, passaram a ocupar espaço também no cinema e na literatura. O fenômeno, impulsionado pelas redes sociais, apresenta a mulher dedicada à casa, ao marido e aos filhos, enquanto o homem aparece como provedor da família.
Esse universo é retratado em “Virtuosas”, filme dirigido por Cíntia Domit Bittar e protagonizado por Bruna Linzmeyer. A produção chegou aos cinemas na quinta-feira, dia 24, e apresenta uma leitura crítica sobre mulheres que seguem esse modelo de vida.
Na trama, Virgínia é uma influenciadora cristã e conservadora que ensina outras mulheres a cuidar da casa, do marido e dos filhos. Ela também orienta suas pupilas sobre como produzir conteúdo para as redes sociais.
Para Bittar, a ambiguidade dessas personagens contribui para o interesse cinematográfico. “As ‘tradwives’ são personagens ambíguas, algo sedutor para a dramaturgia. O cinema adora isso.”
Redes sociais ajudam a difundir o modelo
O crescimento das “tradwives” está relacionado à presença de mulheres que transformam a rotina doméstica em conteúdo para as plataformas digitais. A estética dessas publicações costuma valorizar organização, maternidade, cuidados com a casa e uma aparência cuidadosamente construída.
A diretora de “Virtuosas” pesquisa há quase 20 anos o avanço do conservadorismo e do fundamentalismo religioso no Brasil. Durante a pandemia, quando as “tradwives” ganharam visibilidade nas redes, Bittar identificou no fenômeno uma possibilidade para desenvolver seu primeiro longa-metragem.
O filme provocou reação entre mulheres conservadoras antes mesmo da estreia. A influenciadora e empresária Marina Lenk afirmou nas redes sociais que a produção teria sido feita para “ridicularizar as mulheres cristãs que estão em busca de sua melhor versão”.
Lenk, porém, não havia assistido ao longa quando publicou o vídeo. “Não vi nem vou ver”, afirma em entrevista. Ela não se identifica como “tradwife” e diz que ainda busca se tornar uma mulher virtuosa.
A expressão está relacionada ao capítulo 31 do livro dos Provérbios, no Antigo Testamento. A passagem descreve uma mulher dedicada à família, ao trabalho e à administração de atividades comerciais. A interpretação do texto varia conforme a versão da Bíblia.
A imagem da mulher virtuosa
Para Lenk, os ensinamentos bíblicos permitem conciliar submissão ao marido e trabalho fora de casa. Esse modelo apresenta uma diferença em relação à concepção mais difundida das “tradwives”, que prioriza a dedicação às tarefas domésticas.
Bittar identifica uma contradição nessa combinação. “Muitas virtuosas defendem as carreiras, mas isso é contraditório”, afirma a diretora de “Virtuosas”. “É importante ter dinheiro e sucesso, só que há um teto simbólico. O homem ainda precisa ser o provedor.”
A discussão também aparece em outras obras. “A Dona de Casa Perfeita”, escrita pela britânica Sarah Clarke sob o pseudônimo Liane Child, apresenta uma “tradwife” cuja imagem é colocada em dúvida quando outras mulheres investigam seu passado.
“Suspenses envolvem narradores não confiáveis, como as ‘tradwives’”, diz. “Elas vendem o estilo de vida como sendo fácil, mas há luzes, tripés e edição por trás dessa suposta simplicidade. Vivem uma mentira.”
O tema também dialoga com “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, publicado em 1985. Na obra, as mulheres perdem a autonomia e são submetidas a violência sexual para gerar filhos para famílias da elite. O livro deu origem às séries “The Handmaid’s Tale” e “Os Testamentos”.
No Brasil, “Mulheres Perfeitas”, de Ira Levin, publicado originalmente em 1972, foi relançado pela editora Darkside com referência ao fenômeno “tradwife”.
Cinema explora estética e comportamento
Em “Virtuosas”, a protagonista é construída como uma personagem persuasiva e rígida. Virgínia orienta suas pupilas a acordar às 5h30, preparar marmitas, colocar os bebês para dormir e organizar a mesa de jantar. No fim do dia, também ensina como gravar vídeos para as redes sociais.
A personagem ainda estabelece uma relação entre comportamento, aparência e exposição digital. “Se existissem dez Virgínias, o Brasil já teria endireitado”, afirma uma das personagens.
A atriz Bruna Linzmeyer pesquisou nas redes sociais referências sobre o comportamento das mulheres virtuosas para construir a personagem. Também observou figuras da política brasileira.
“Michelle não foi uma referência direta”, afirma Linzmeyer. “Mas o cinema dá imagens e você relaciona com seu repertório. Se as pessoas estão enxergando a Michele, isso diz algo.”
A própria diretora decidiu levar a alegoria ao extremo para apresentar sua interpretação sobre o movimento. O filme começa com uma palestra de Virgínia inspirada nos encontros entre mulheres virtuosas pesquisados por Bittar.
A produção, assim, coloca no centro da narrativa a relação entre crenças, comportamento, aparência e exposição nas redes sociais. A estética de uma vida organizada e dedicada à família passa a ser também objeto de investigação artística, especialmente quando essa imagem é transformada em conteúdo para o público.
Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/livros-transformados-em-filmes-conceito-de-cenario-na-mesa_40959890.htm