Mulheres na pós-menopausa com maior acúmulo de gordura abdominal tendem a apresentar desempenho inferior em testes cognitivos. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Menopause, que analisou a relação entre a distribuição de gordura corporal e funções como memória, atenção e capacidade de planejamento.
A pesquisa acompanhou mais de 700 mulheres, com idades entre 42 e 58 anos, durante quatro anos. Todas estavam na menopausa natural havia até três anos. Os dados fazem parte do Kronos Early Estrogen Prevention Study (KEEPS-Cog), investigação conduzida nos Estados Unidos para avaliar os efeitos do estrogênio no organismo feminino.
As participantes foram divididas em três grupos: um recebeu estrogênio por via oral, outro utilizou estradiol transdérmico e o terceiro recebeu placebo. Mulheres com diagnóstico de diabetes ou com alto risco cardiovascular foram excluídas, o que permitiu observar com mais precisão a relação entre gordura corporal e cognição sem a interferência desses fatores.
Medida corporal indica mais do que o peso
O principal indicador analisado foi a relação cintura-quadril, conhecida como RCQ. Esse índice compara a circunferência da cintura com a do quadril e ajuda a identificar a concentração de gordura abdominal, especialmente a gordura visceral, que envolve órgãos internos e está associada a riscos metabólicos.
Os resultados mostram que 61,5% das mulheres tinham circunferência abdominal superior a 80 centímetros, valor considerado de risco. Além disso, 28,7% apresentavam RCQ igual ou superior a 0,85, faixa que indica acúmulo significativo de gordura central.
Esse tipo de distribuição corporal se mostrou mais relevante do que o índice de massa corporal, o IMC, tradicionalmente utilizado para avaliar peso em relação à altura. Enquanto o IMC pode indicar sobrepeso ou obesidade de forma geral, ele não diferencia onde a gordura está localizada, um fator que, segundo os pesquisadores, faz diferença na saúde cerebral.
Mulheres com maior RCQ no início do estudo tiveram pior desempenho ao longo do acompanhamento em testes de memória verbal, atenção auditiva e visual e função executiva. Essas habilidades estão ligadas à organização de tarefas, tomada de decisão e controle de impulsos, aspectos centrais da vida cotidiana.
Alterações hormonais explicam parte do fenômeno
A redistribuição da gordura corporal na menopausa está diretamente ligada à queda dos níveis de estrogênio. Durante a fase reprodutiva, o hormônio favorece o acúmulo de gordura em regiões periféricas, como quadris e coxas. Com a redução hormonal, há uma tendência de centralização dessa gordura na região abdominal.
Esse processo ocorre mesmo quando o peso corporal total não se altera de forma significativa. Na prática, a balança pode permanecer estável, mas a composição corporal muda, com impacto no metabolismo.
O estrogênio também exerce funções importantes além da regulação da gordura. Ele participa da manutenção da saúde vascular, influencia o metabolismo da glicose e dos lipídios e atua diretamente no sistema nervoso central. Entre seus efeitos estão a modulação da plasticidade sináptica e do fluxo sanguíneo cerebral.
Com a diminuição desse hormônio, cria-se um ambiente mais propício a processos inflamatórios e à resistência à insulina, fatores que, de forma indireta, podem afetar o funcionamento cognitivo ao longo do tempo.
Terapia hormonal não mostrou prejuízo cognitivo
Um dos pontos avaliados pelo estudo foi o impacto da terapia hormonal na cognição. Os resultados não indicaram efeito negativo do uso de estrogênio, independentemente da forma de administração. Também não houve evidência de que a terapia fosse capaz de alterar a associação entre maior RCQ e pior desempenho cognitivo.
Apesar disso, especialistas ressaltam que a reposição hormonal não deve ser utilizada com o objetivo de prevenir demência. A indicação precisa considerar fatores individuais, histórico clínico e avaliação médica criteriosa.
Estilo de vida segue como principal estratégia
Diante dos achados, a atenção se volta para medidas práticas que podem reduzir riscos. A alimentação tem papel central, com foco na redução de produtos ultraprocessados e no consumo equilibrado de proteínas, vitaminas e minerais.
A atividade física regular também aparece como um dos pilares. Exercícios de força, combinados com atividades aeróbias, ajudam a diminuir a gordura visceral e a melhorar a sensibilidade à insulina, dois pontos diretamente ligados aos mecanismos observados no estudo.
O acompanhamento médico periódico completa o quadro de prevenção. Medidas simples, como a aferição da circunferência abdominal e o cálculo da relação cintura-quadril, podem oferecer sinais precoces de alterações metabólicas.
Os resultados reforçam a importância de olhar além do peso corporal ao avaliar a saúde de mulheres na menopausa. A forma como a gordura se distribui no corpo pode revelar riscos que não aparecem em indicadores tradicionais e que têm impacto direto no envelhecimento cognitivo.
Fonte: Folha de São Paulo
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