Manter uma alimentação considerada saudável tende a pesar mais no bolso a partir de 2026. Uma projeção elaborada pela Universidade Federal de Minas Gerais em parceria com o Instituto de Defesa do Consumidor indica que, pela primeira vez, os alimentos in natura ou minimamente processados devem ultrapassar, em média, o preço dos produtos ultraprocessados. O estudo analisou a evolução dos valores praticados no país desde o início da pandemia de Covid-19, em 2020, e aponta uma tendência de longo prazo que preocupa especialistas em saúde pública e economia.
De acordo com a pesquisa, itens como frutas, legumes, verduras e alimentos básicos frescos têm sido impactados por uma combinação de fatores estruturais. Custos de transporte, armazenamento, logística e combustível influenciam diretamente os preços finais desses produtos. Já os ultraprocessados, além de terem maior durabilidade e facilidade de distribuição, são baseados em commodities como milho e soja, que contam com incentivos fiscais e cadeias produtivas altamente subsidiadas no Brasil.
Para a nutricionista e pesquisadora do Idec, Ana Maria Maya, o debate sobre alimentação saudável precisa considerar o peso do custo no cotidiano das famílias. “Muitos profissionais de saúde diziam que ter uma alimentação saudável era uma questão de escolha”, afirma. “Mas isso não é verdade. Em uma população socioeconomicamente vulnerável, como o Brasil, precisamos considerar que o custo vai ser determinante para as escolhas alimentares”.
Preço, renda e insegurança alimentar
A elevação relativa dos alimentos frescos ocorre em um cenário marcado por informalidade no mercado de trabalho e instabilidade financeira. O professor de economia Valter Palmieri Jr., doutor em Desenvolvimento Econômico, explica que essas condições reduzem a capacidade de planejamento das famílias e afetam diretamente a dieta. “Quando os preços dos alimentos sobem, famílias mais vulneráveis perdem liberdade de escolha alimentar, o que reduz a variedade da dieta e aumenta a ansiedade em relação à comida, criando um ambiente propício ao sofrimento psíquico associado à alimentação”, diz.
Segundo ele, o ambiente econômico, cultural e social no Brasil favorece o consumo de ultraprocessados por diferentes vias. O preço mais baixo é apenas uma delas. A ampla oferta, a facilidade de acesso em qualquer região e o marketing agressivo tornam esses produtos ainda mais presentes no dia a dia. Paralelamente, a publicidade reforça padrões corporais idealizados e pouco realistas. “São incentivos contraditórios, que ampliam lucros, mas geram custos ocultos e pioram nossa relação e nosso comportamento com a comida”, avalia o economista.
A questão não se limita à renda ou à informação nutricional. Mesmo consumidores conscientes enfrentam barreiras concretas para manter uma alimentação equilibrada quando os preços dos alimentos frescos sobem acima da inflação média. O resultado, apontam os pesquisadores, é a substituição gradual por opções mais baratas, calóricas e pobres em nutrientes.
Ultraprocessados, compulsão e cuidado no discurso
A psiquiatra Nicole Rezende, pesquisadora e colaboradora do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, destaca outro aspecto relevante. Segundo ela, alimentos ultraprocessados possuem potencial adictivo. São desenvolvidos para serem hiperpalatáveis e concentram grandes quantidades de açúcar, sal, gordura e aditivos químicos, o que dificulta a moderação no consumo.
“Quanto mais fácil acessar um produto processado, com um ambiente que facilita isso, mais automáticas se tornam essas escolhas e pode-se observar um padrão semelhante ao das dependências químicas, em que a pessoa tenta reduzir o consumo mas não consegue. O cérebro fica muito exposto realmente a pistas que disparam essa vontade o tempo todo”. Esse cenário aumenta o risco de compulsão alimentar e a sensação de perda de controle.
Nicole ressalta, porém, que o enfrentamento do problema exige cuidado para não transformar a alimentação em um campo moral. “Isso pode gerar uma moralização, como se comer fosse errado, em vez de focar os alvos reais, que seriam design do produto, marketing, disponibilidade e custo”, afirma. Para ela, o pensamento de tudo ou nada tende a ampliar o sofrimento, reforçando ciclos de restrição, fissura, perda de controle e culpa.
Diante desse quadro, especialistas defendem políticas públicas que estimulem a produção e o consumo de alimentos in natura ou minimamente processados. Ana Maria Maya lembra que há anos a sociedade civil e organizações do terceiro setor pressionam por medidas desse tipo. Ainda assim, a recente reforma tributária criou o chamado imposto do pecado apenas para bebidas alcoólicas e adocicadas, sem prever incentivos fiscais capazes de reduzir o preço dos ultraprocessados ou tornar os alimentos frescos mais acessíveis para a população.
Fonte: Folha de São Paulo
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