Os brasileiros conhecem os princípios de uma alimentação saudável, mas encontram dificuldades para transformar esse conhecimento em hábito. A distância entre saber e fazer aparece de forma consistente em diferentes perfis sociais, segundo o estudo “Comportamento alimentar: percepções e desafios da alimentação saudável”.
A pesquisa foi idealizada pelo Pacto Contra a Fome e conduzida pelo Instituto Pensi, com apoio da FOLU e cofinanciamento da Fundação José Luiz Setúbal. O levantamento mostra que a base conceitual está disseminada, mas fatores práticos interferem diretamente na adesão a uma dieta equilibrada.
“A maior parte das pessoas sabe que uma alimentação saudável é baseada em produtos in natura, frutas, legumes e verduras. O que não está acontecendo é a prática. A intenção de comer bem e o comportamento não estão necessariamente andando juntos”, afirma Maria Siqueira, cofundadora e co-diretora-executiva do Pacto Contra a Fome.
Há tentativas de organização alimentar, como planejamento de compras e preparo de refeições. Ainda assim, a rotina se impõe. Falta de tempo, cansaço acumulado e limitações financeiras aparecem como obstáculos recorrentes. Em um dos relatos, uma participante de São Paulo, de 37 anos, da classe AB, diz que “enfrenta muita falta de tempo para fazer comida”, o que restringe o preparo a momentos pontuais, geralmente à noite.
Entre a obrigação e a praticidade
A forma como a alimentação saudável é percebida também pesa. Nos grupos ouvidos, ela aparece frequentemente associada a disciplina e esforço, o que reduz seu apelo cotidiano. Em contraste, opções como fast food e delivery são ligadas a praticidade, conforto e recompensa.
“Hoje não se entende alimentação saudável como prazerosa. Já o fast food e o delivery aparecem como indulgência”, afirma Siqueira.
Essa lógica aparece em diferentes contextos. Uma mulher de 39 anos, da classe C, relata que, para ganhar tempo, prefere preparar um empanado frito que “fica maravilhoso”. Já uma jovem de 26 anos, da classe AB, afirma que, após dias exaustivos, recorrer a aplicativos de entrega se torna a alternativa mais viável. “Por mais que não seja saudável, é o que dá.”
Segundo Claudia Koning, pesquisadora do Instituto Pensi, a percepção de uma rotina acelerada atravessa as classes sociais e influencia diretamente as escolhas alimentares.
“Existe uma carga mental invisível relacionada ao planejamento alimentar. Não é apenas cozinhar, mas decidir o que será preparado, considerar preferências da família e conciliar tudo isso com uma rotina já sobrecarregada”, afirma.
Orçamento define o que vai ao prato
O custo dos alimentos é outro fator determinante. A percepção de que comer de forma saudável exige mais dinheiro apareceu em praticamente todos os grupos. Quando o orçamento fica mais apertado, as escolhas são ajustadas, mas não de forma uniforme.
Nas classes de maior renda, os cortes tendem a atingir itens considerados menos essenciais, como doces, petiscos ou produtos premium. Já nas classes C e DE, a redução impacta diretamente a qualidade da alimentação, com saída de carnes, frutas e legumes do carrinho.
“[Sobre suco], deixo a fruta e compro o de saquinho. É bem mais em conta”, diz uma mulher de 30 anos, mãe de um filho, moradora de São Paulo, da classe C. Em Belém, uma participante de 24 anos afirma que “a variedade de frutas diminui, não dá pra comprar vários tipos”. Outra, de 29 anos, resume a lógica: “Quando o dinheiro está pouco, normalmente sai a salada, que é o pepino”.
O cenário acompanha indicadores nacionais. Dados recentes da Pnad Contínua mostram que o Brasil ainda registrava, em 2024, cerca de 54,7 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar, o que representa 25,7% da população. Nos níveis mais leves, há perda de qualidade na dieta. Nos quadros mais graves, a redução atinge a quantidade de alimentos disponível.
Desigualdade de gênero na alimentação
O estudo também aponta diferenças na divisão de responsabilidades dentro das famílias. As mulheres concentram o planejamento, a compra e o preparo das refeições, mesmo quando acumulam outras atividades profissionais.
Além da sobrecarga, há impacto direto na própria alimentação. Segundo Koning, são elas que mais relatam sentimentos de culpa relacionados ao que a família consome.
“A pior alimentação tende a recair sobre as mulheres. A prioridade é garantir a comida dos filhos, e, na correria, muitas acabam comendo o que sobra ou optando por algo rápido no caminho. Falta tempo para pensar na própria alimentação, porque o foco está sempre na criança”, afirma.
Informação não basta para mudar hábito
Para as pesquisadoras, o desafio vai além de ampliar o acesso à informação nutricional. O conhecimento já existe. O ponto central é criar condições para que ele se traduza em prática.
“As pessoas já sabem o que é saudável. O que falta é repertório e soluções viáveis para o dia a dia”, afirma Koning.
Entre os caminhos apontados estão políticas públicas que ampliem o acesso a alimentos in natura, com subsídios e estímulo à produção, além de mudanças na comunicação sobre alimentação. “Hoje, a propaganda favorece alimentos prejudiciais à saúde. É preciso usar esses mesmos mecanismos para promover escolhas mais saudáveis”, diz Siqueira.
A educação alimentar também aparece como estratégia relevante, sobretudo no ambiente escolar. Experiências internacionais indicam que o ensino de culinária desde cedo pode influenciar hábitos não só das crianças, mas também de suas famílias.
“Em países como a Alemanha, há aulas semanais de culinária até o ensino médio. Os alunos aprendem a cozinhar. O que a criança está aprendendo na escola vai impactar a família dela, porque ela vai levar aquilo pra casa”, afirma Koning.
A pesquisa foi realizada em duas etapas. Primeiro, foram analisados 210 artigos científicos sobre comportamento alimentar. Depois, 142 pessoas foram ouvidas entre setembro e novembro de 2025 em cinco capitais brasileiras: São Paulo, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre e Belém. A amostra teve predominância feminina e incluiu jovens de 18 a 25 anos e adultos de 30 a 40 anos. Entre as limitações estão o recorte urbano e a coleta remota dos dados.
Fonte: Folha de São Paulo
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