A rápida circulação de memes, gírias e códigos próprios nas redes sociais ajuda a explicar um comportamento cada vez mais presente entre adolescentes e jovens adultos: a busca por pertencimento em comunidades digitais. Em plataformas como TikTok e X, antigo Twitter, compreender a linguagem interna de determinados grupos se tornou uma forma de aproximação social e de reconhecimento simbólico dentro desses espaços.
Esse tipo de linguagem pode surgir a partir de um termo, de um som, de um emoji ou de uma referência cultural específica. Quando viraliza, passa a funcionar como um marcador de identidade dentro de nichos virtuais. Entender o código sinaliza que o usuário está conectado, atento e alinhado ao ritmo do grupo. O problema aparece quando esse entendimento deixa de ser espontâneo e passa a ser visto como requisito para aceitação.
A velocidade com que tendências surgem e desaparecem nas redes cria um ciclo permanente de atualização. O jovem que acompanha sente que pertence, participa e não fica para trás. Quem não consegue acompanhar pode experimentar a sensação oposta. No ambiente digital, essa lógica se intensifica porque os algoritmos reforçam bolhas de interesse e entregam conteúdos semelhantes de forma contínua, o que acelera a sensação de urgência.
O funcionamento lembra as dinâmicas sociais do mundo offline, nas quais estar por dentro de uma conversa garante inclusão. A diferença é que, nas redes, essa dinâmica opera em escala maior, com menos pausas e maior exposição pública. Curtidas, comentários e visualizações transformam interações em métricas, ampliando a comparação constante entre pares.
O impacto na saúde mental
Manter-se atualizado o tempo todo para não ser excluído de grupos virtuais pode gerar ansiedade e estresse. A pressão para acompanhar todas as tendências se soma ao FOMO, sigla em inglês para fear of missing out, que descreve o medo de perder algo relevante. Esse receio contribui para o aumento do tempo de tela e para uma vigilância frequente das redes sociais.
Quando o adolescente não compreende uma gíria ou meme que circula entre amigos, sentimentos de inadequação e solidão podem surgir. A exclusão digital, embora imaterial, pode ser vivida de forma intensa, com impacto direto na autoestima e no bem-estar emocional. Ambientes criados para conexão acabam funcionando, em alguns casos, como espaços de cobrança e comparação permanente.
Estudos sobre comportamento digital indicam que a exposição prolongada a conteúdos altamente filtrados tende a reforçar padrões irreais de pertencimento e sucesso social. A sensação de que todos estão participando de algo relevante, enquanto o indivíduo está de fora, alimenta frustrações silenciosas e dificulta o descanso mental.
No ambiente escolar, professores e orientadores relatam que conflitos e inseguranças iniciados nas redes frequentemente se refletem em sala de aula. Comentários, exclusões e disputas simbólicas que ocorrem online atravessam o cotidiano presencial. Por isso, ações de educação digital, escuta qualificada e debates sobre uso consciente das plataformas ganham espaço como estratégia de prevenção e cuidado coletivo contínuo.
Essas iniciativas também ajudam a construir senso crítico e autonomia no uso das redes desde cedo.
Para pais e responsáveis, compreender esse cenário é mais eficaz do que tentar decifrar cada nova expressão que surge. A busca constante por referências pode indicar necessidades mais profundas, como aceitação, identidade e reconhecimento. Manter diálogo aberto sobre experiências online, sem julgamento ou minimização, ajuda a identificar sinais de sofrimento emocional e a oferecer apoio quando necessário.
A mediação adulta também passa por incentivar limites no uso das plataformas e valorizar experiências fora do ambiente digital. Atividades presenciais, convivência familiar e espaços de escuta contribuem para reduzir a dependência da validação online e fortalecem vínculos mais estáveis.
No cotidiano, vale observar a própria relação com as redes sociais. Se a permanência nas plataformas começa a gerar cansaço, irritação ou sensação de obrigação, é um sinal de alerta. Perguntas como “Eu preciso mesmo saber qual é o assunto mais falado do momento?”, “entender esse meme é tão importante assim?” ou “eu preciso mesmo saber o que está acontecendo no BBB 26?” ajudam a refletir sobre prioridades. Reconhecer padrões de comportamento é um passo relevante para preservar a saúde mental individual.
Fonte: Estado de Minas
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