Durante muito tempo, o aparecimento dos cabelos brancos foi tratado como um marcador inevitável da idade. Para muitas mulheres, em especial, esse processo vinha acompanhado de pressão estética e da necessidade de esconder os fios com tinturas frequentes. O grisalho era associado à falta de cuidado, enquanto o envelhecimento masculino costumava ser visto com mais tolerância. Esse padrão começa a mudar. Em meio a discussões sobre liberdade estética e valorização da aparência natural, assumir os fios brancos deixa de ser apenas uma consequência biológica e passa a representar uma decisão consciente.
A comunicadora Luciane Improta, 42 anos, relata que abandonar a coloração foi um passo além da estética. “Decidi me libertar dessa opressão cruel de que mulheres não podem ter cabelos brancos porque isso é ‘falta de cuidado’, enquanto os homens passam pelo mesmo processo e ficam ‘charmosos’. Menos, né? Todo mundo envelhece”, afirma.
Ela lembra que os primeiros fios surgiram ainda jovem, por volta dos 20 anos. A partir daí, entrou em uma rotina de retoques constantes. “Cerca de 10 dias depois de pintar, a raiz já me incomodava. Cheguei a fazer mechas bem loiras para disfarçar, mas meu cabelo ficou muito prejudicado. Era uma bola de neve.”
Com o tempo, o desgaste financeiro e capilar pesou. “Eu gastava cada vez mais tentando resolver problemas causados por não assumir meu cabelo natural.” Ao interromper o uso de tinturas, a mudança foi além do visual. “Eu me sinto linda, moderna e, principalmente, livre.”
Grisalho precoce e mudança de percepção
Nem sempre o embranquecimento dos fios acompanha o envelhecimento. Em alguns casos, ele aparece ainda na infância ou adolescência. A secretária Débora Aline, 22 anos, conta que começou a perceber fios brancos aos 7. “Aos 7 anos, já tinha fios brancos, e isso me incomodava muito. Me chamavam de velha. Pintava de preto, mas em menos de 15 dias já precisava retocar, e, com a rotina corrida, nem sempre dava.”
O que antes gerava desconforto passou por uma mudança gradual. “De tanto fugir, comecei a amar meu cabelo”, diz. Hoje, o grisalho virou marca pessoal. “As pessoas elogiam muito e perguntam até em qual salão eu fiz.”
Para o educador e especialista em corte e cor Marcel Machado, essa transformação tem relação com o reposicionamento do grisalho na estética contemporânea. “Os cabelos brancos e grisalhos deixaram de estar associados apenas ao envelhecimento e passaram a funcionar como uma tendência estética, muito próxima ao universo dos platinados. Não é mais sobre declínio, mas sobre estilo e autoconhecimento.”
Ele destaca que cortes bem estruturados ajudam a valorizar o visual. “Linhas definidas transformam completamente o visual. A proposta hoje é potencializar, não esconder.”
O que explica o embranquecimento
Do ponto de vista médico, o processo é natural. A dermatologista Regina Buffman explica que o embranquecimento ocorre pela redução progressiva da melanina, pigmento responsável pela cor dos fios. “Com o tempo, os melanócitos diminuem sua atividade até cessarem completamente.”
Ela diferencia as fases. O cabelo grisalho é aquele que mistura fios pigmentados e brancos. Já o cabelo branco não possui mais melanina. A genética costuma ser o principal fator. “A predisposição familiar determina, em grande parte, quando o processo de embranquecimento vai começar”, resume.
Luciane confirma essa influência. “Desde que me entendo por gente, meus avós maternos tinham o cabelo branco.” Débora também investigou possíveis causas. “Já suplementei vitaminas, mas no meu caso é genético mesmo.”
Outros fatores podem contribuir, embora não sejam determinantes. O estresse é frequentemente citado e pode acelerar o processo em alguns casos. Deficiências nutricionais também entram na lista. “Deficiências nutricionais, especialmente de vitamina B12, ferro e cobre, podem contribuir bastante para o embranquecimento precoce dos fios”, afirma Regina.
Transição exige tempo e adaptação
Assumir o grisalho envolve um período de adaptação que nem sempre é simples. A fase de transição, quando a raiz natural cresce e contrasta com a parte tingida, costuma ser a mais desafiadora.
“Quando você para de pintar, a tinta desbota e o cabelo não fica bonito”, relata Luciane. Para lidar com esse momento, ela optou por um corte curto. “Foi radical. Você precisa se adaptar, mudar o estilo, entender o novo cabelo.”
Marcel orienta que o processo deve respeitar o ritmo de cada pessoa. “Mas com um corte bem pensado e, quando faz sentido, uma coloração mais leve para equilibrar as fases, o processo fica bem mais leve e até divertido.” Ele reforça que não existe um padrão único. “Cada cabelo tem uma distribuição única de fios brancos, o que permite resultados muito personalizados.”
Cuidados com os fios grisalhos
Sem melanina, os fios tendem a ser mais ressecados e sensíveis à exposição solar. Por isso, alguns cuidados entram na rotina. Débora aposta em produtos específicos. “Uso desamarelador, matizador e protetor térmico. Faço hidratação uma vez por semana.”
Luciane prefere uma abordagem simples. “Uso xampu e condicionador infantil. Para mim, funciona superbem.” Ela também incorporou escovas de madeira para reduzir o frizz.
Segundo Regina, não há uma fórmula única, mas alguns pontos são importantes. Hidratação frequente ajuda a compensar a perda de água dos fios. A proteção contra radiação UV também deve ser considerada. “O ideal é usar produtos com proteção solar capilar e acessórios como chapéus.”
A matização, embora não obrigatória, pode ser útil para manter a cor uniforme, neutralizando tons amarelados causados por poluição e exposição ao sol.
Se antes o espelho refletia uma tentativa constante de correção, hoje ele pode indicar um processo de reconhecimento. Débora resume de forma direta: “Hoje, eu acho um charme.”
Fonte: Correio Braziliense
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/homem-mais-velho-segurando-seus-cabelos-grisalhos_9411423.htm