A relação entre atividade física e estética atravessa séculos. Na Grécia Antiga, imagens de homens com músculos definidos simbolizavam força e virilidade. No fim do século 19, inspirado por esses ideais, Eugen Sandow estruturou o que hoje conhecemos como musculação como caminho para alcançar um corpo considerado ideal. Décadas depois, nos anos 1980, vídeos de ginástica popularizados por Jane Fonda reforçaram um padrão corporal associado à disciplina e à magreza. Nas redes sociais, influenciadoras fitness atualizam essa narrativa diariamente.
Mas o exercício nem sempre esteve restrito à aparência. O mesmo mundo grego que cultuava corpos atléticos também defendia o equilíbrio entre mente e corpo como fundamento do bem-estar. O psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, lembra que o movimento corporal era entendido como parte de uma vida saudável, não apenas como ferramenta estética.
Hoje, o sedentarismo é reconhecido como fator de risco para doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e diferentes tipos de câncer. Ao mesmo tempo, a pressão por um padrão de magreza segue forte no Brasil, país que ocupa posições de destaque no consumo de produtos e serviços ligados ao corpo. Nesse cenário, cresce a discussão sobre a possibilidade de praticar exercício físico sem que o emagrecimento seja o único objetivo.
Da pressão estética ao prazer no movimento
A influenciadora Ellen Valias, 44 anos, relata que encontrou na atividade física um apoio para a saúde mental. Na infância, enfrentou racismo e gordofobia na escola. Foi na aula de educação física, jogando basquete, que passou a associar o movimento a reconhecimento e protagonismo.
Na adolescência, porém, a pressão sobre o corpo se intensificou. A prática esportiva deixou de ser apenas fonte de prazer e passou a ser instrumento para emagrecer. “Eu me pesava antes de ir para a academia, treinava, me pesava na academia; chegava em casa, me pesava de novo”, conta. O ritual constante com a balança acabou esvaziando o gosto pelo exercício.
Em 2017, após uma crise de ansiedade em uma estação de metrô, Ellen decidiu rever sua relação com o próprio corpo. Começou a compartilhar reflexões nas redes sociais e se aproximou do movimento body positive, que defende a aceitação corporal. Também ingressou na faculdade de educação física.
“O corpo gordo é visto como um corpo a ser consertado, doente e invisibilizado”, diz. “E a pessoa tem que se sentir bem fazendo atividade física, que é acesso à saúde. A atividade física parece que é só para emagrecer, mas existem vários benefícios.”
Hoje, ela pratica musculação pensando na saúde mental, na disposição para brincar com os filhos, caminhar, correr e jogar basquete. Em 2022, concluiu a meia maratona do Rio de Janeiro. Para Ellen, exercitar-se no Brasil ainda é privilégio, diante das desigualdades de acesso a espaços seguros e orientação profissional. Mesmo assim, defende que cada pessoa faça o que estiver ao alcance.
Motivação que sustenta o hábito
Bruno Rodrigues, professor da Faculdade de Educação Física da Unicamp, observa que muitas pessoas iniciam treinos com foco na perda de peso. “No entanto, a ciência da motivação e da psicologia do esporte diz que não é necessariamente o motor que nos faz começar alguma coisa e que também nos mantém a fazer aquilo por muito tempo.”
Ele cita a teoria da autodeterminação, segundo a qual a motivação varia em qualidade. A motivação intrínseca, ligada ao prazer, ao bem-estar e à satisfação pessoal, tende a ser mais duradoura. Já a extrínseca, movida por pressão social ou recompensas externas, costuma ser mais instável. Quando o objetivo central é estético, a demora nos resultados pode gerar frustração e abandono.
Dunker pondera que os extremos são problemáticos. Quem frequenta a academia sem qualquer reflexão sobre limites pode exagerar. Por outro lado, quem treina apenas para atingir um resultado pode impor a si uma rotina desagradável e desistir. Em alguns casos, o exercício se transforma em punição, compulsão ou obsessão, especialmente entre pessoas com distorção de imagem ou transtornos alimentares. Quando a prática é guiada pelo olhar do outro, a ausência do treino pode provocar culpa e angústia.
Benefícios que vão além da balança
Os especialistas ressaltam que a atividade física regular reduz significativamente o risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, AVC e diversos tipos de câncer. Também melhora a sensibilidade à insulina e o controle glicêmico, independentemente da perda de peso. Na saúde mental, contribui para redução de sintomas de ansiedade e depressão.
Rodrigues sugere ampliar a forma de medir conquistas. Melhorar o tempo na esteira ou na bicicleta, reduzir a frequência cardíaca em esforço, subir escadas sem cansaço excessivo, brincar com os filhos com mais disposição e ganhar autonomia no dia a dia são indicadores concretos de progresso.
Experimentar modalidades diferentes também ajuda a criar vínculo afetivo com o movimento. Dança, caminhada ao ar livre, natação e esportes coletivos oferecem experiências que ultrapassam o treino em si. Segundo Dunker, o exercício permite vivenciar a cidade, estabelecer trocas sociais e ampliar o contato com a natureza.
No fim, a mudança de perspectiva passa por uma ideia simples. “A relação saudável com a atividade física vai começar quando o corpo deixa de ser um projeto a ser corrigido e passa a ser um sistema a ser cuidado”, diz.
Fonte: Folha de São Paulo
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