A busca por alternativas no tratamento de transtornos mentais tem levado pacientes e pesquisadores a olhar com mais atenção para a alimentação. Entre as abordagens que ganharam espaço nos últimos anos está a dieta cetogênica, conhecida pelo alto consumo de gorduras e pela restrição de carboidratos. Embora tradicionalmente associada à perda de peso e ao controle da epilepsia, a estratégia alimentar passou a ser investigada também por seus possíveis efeitos no cérebro.
O interesse não surge por acaso. Casos individuais ajudam a impulsionar a discussão. A neurocientista Maya Schumer, de 32 anos, relatou ter convivido por mais de uma década com transtorno bipolar, enfrentando episódios persistentes de pânico, mania e depressão, mesmo após diferentes tratamentos com terapia e medicamentos. Em 2024, segundo ela, a situação chegou ao ponto mais crítico. Foi nesse contexto que decidiu testar a dieta cetogênica, por recomendação médica.
Após cinco meses com uma alimentação baseada em carnes, gorduras e baixa ingestão de carboidratos, ela observou redução nos ataques de pânico e melhora na concentração. A depressão, no entanto, só cedeu após a introdução de uma dose baixa de lítio. Combinando dieta e medicação, Schumer afirma que passou a se sentir mais estável.
O que caracteriza a dieta cetogênica
Criada na década de 1920 como tratamento para epilepsia, a dieta cetogênica tem como princípio induzir o corpo a um estado metabólico chamado cetose. Nesse processo, o organismo deixa de usar carboidratos como principal fonte de energia e passa a queimar gordura.
Para alcançar esse efeito, a alimentação prioriza itens como ovos, carnes, peixes, manteiga, castanhas e vegetais com baixo teor de amido, como folhas verdes e couve-flor. Em contrapartida, alimentos como arroz, pão, massas, açúcar, batata e a maior parte das frutas são reduzidos ou eliminados.
Segundo pesquisadores da área de psiquiatria metabólica, essa mudança pode estabilizar os níveis de açúcar no sangue e influenciar processos inflamatórios e químicos no cérebro, o que levantou hipóteses sobre possíveis impactos na saúde mental.
Estudos sugerem melhora, mas com limitações
Apesar do crescente interesse, as evidências científicas ainda são consideradas iniciais. Um dos primeiros indícios surgiu em 2017, quando um estudo de caso relatou melhora significativa em dois pacientes com transtorno esquizoafetivo após a adoção da dieta. Os sintomas teriam retornado rapidamente após a interrupção do regime alimentar.
Mais recentemente, ensaios pequenos trouxeram novos dados. Em um estudo de 2024 com 23 adultos diagnosticados com esquizofrenia ou transtorno bipolar, os sintomas apresentaram melhora média de 31% após quatro meses de dieta. Já uma pesquisa publicada em 2025, com 16 universitários com depressão maior, indicou redução de cerca de 70% nos sintomas após 10 a 12 semanas.
Há, no entanto, ressalvas importantes. Muitos participantes desses estudos também perderam peso e apresentaram melhora em indicadores físicos, como pressão arterial e inflamação. Esses fatores, por si só, podem influenciar o funcionamento cerebral e o bem-estar geral.
Outro ponto é a ausência de grupos de controle em parte das pesquisas. Isso dificulta separar o efeito direto da dieta de possíveis influências psicológicas, como o efeito placebo.
Um estudo mais robusto, publicado em fevereiro e conduzido com 88 pessoas com depressão clínica, incluiu essa comparação. Os participantes foram divididos entre um grupo que seguiu a dieta cetogênica e outro que apenas adotou hábitos alimentares mais saudáveis. Embora o grupo cetogênico tenha apresentado melhora maior, a diferença foi considerada pequena.
Riscos, desafios e necessidade de acompanhamento
Enquanto novas pesquisas estão em andamento, especialistas mantêm uma posição cautelosa. Um dos principais alertas envolve o risco de pacientes abandonarem tratamentos convencionais ao perceberem alguma melhora inicial com a dieta. Isso pode levar à piora dos sintomas ou até a crises graves.
Há também preocupações com os efeitos físicos de longo prazo. Versões populares da dieta costumam ser ricas em gorduras saturadas e pobres em fibras, o que pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer.
Outro obstáculo é a adesão. A restrição alimentar é significativa e exige mudanças profundas no dia a dia, incluindo preparo frequente de refeições e eliminação de alimentos comuns na rotina brasileira, como arroz, feijão e frutas.
Diante desse cenário, a recomendação é clara entre os profissionais: qualquer tentativa de adotar a dieta cetogênica deve ser feita com acompanhamento médico. O monitoramento permite ajustes, inclusive em medicações, e reduz riscos associados a mudanças bruscas.
A relação entre alimentação e saúde mental segue como um campo promissor, mas ainda em construção. Por enquanto, a dieta cetogênica aparece mais como um possível complemento do que como substituição dos tratamentos já consolidados.
Fonte: Folha de São Paulo
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