A ideia de que momentos de tensão aceleram o aparecimento de cabelos brancos atravessa gerações, aparece em conversas informais e ganhou força nas redes sociais. A associação, porém, não é apenas fruto do senso comum. Estudos recentes indicam que o estresse pode, sim, influenciar o embranquecimento capilar, ainda que não seja o fator decisivo na maioria dos casos.
O processo de perda da cor dos fios está ligado à diminuição da produção de melanina, pigmento responsável pela coloração do cabelo. Essa substância é produzida pelos melanócitos, células localizadas nos folículos pilosos. Quando a atividade dessas células cai ou se encerra, os fios passam a crescer sem pigmentação.
De acordo com o Dr. Lucas Miranda, médico dermatologista e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, o estresse entra como um elemento capaz de acelerar esse mecanismo, especialmente quando se manifesta de forma intensa e prolongada.
“O estresse pode contribuir para o surgimento de fios brancos, embora não seja o único fator envolvido. O embranquecimento dos cabelos ocorre principalmente pela redução ou perda da atividade dos melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina no folículo piloso”, explica o especialista.
O papel do sistema nervoso no embranquecimento
Nos últimos anos, pesquisas aprofundaram a relação entre o estresse crônico e o funcionamento do organismo em nível celular. Segundo o dermatologista, situações de pressão contínua ativam respostas neuro-hormonais associadas ao sistema nervoso simpático, responsável pelas reações de alerta do corpo.
“Esse processo pode acelerar o aparecimento dos fios brancos, sobretudo em pessoas geneticamente predispostas. No entanto, é importante destacar que o fator genético continua sendo o principal determinante do momento em que os cabelos começam a perder a pigmentação.”
Na prática, isso significa que o estresse atua como um catalisador. Ele não cria o problema do zero, mas pode antecipar algo que já estava programado biologicamente. Pessoas com histórico familiar de embranquecimento precoce tendem a perceber os efeitos mais cedo quando submetidas a longos períodos de tensão emocional.
Ainda assim, especialistas reforçam que nem todo cabelo branco é consequência direta de estresse. Envelhecimento natural, herança genética e condições metabólicas continuam sendo os elementos mais frequentes associados à mudança de cor dos fios.
É possível evitar o aumento dos fios brancos?
Apesar dos avanços no entendimento do fenômeno, a medicina ainda não dispõe de métodos comprovados para reverter fios que já perderam a pigmentação. Uma vez branco, o cabelo dificilmente volta à cor original de forma espontânea ou com tratamentos cosméticos.
Por outro lado, há estratégias que podem ajudar a retardar a progressão do embranquecimento, sobretudo quando ele ocorre de maneira precoce.
“O controle do estresse é um ponto relevante, assim como a manutenção de hábitos de vida saudáveis, incluindo sono adequado, alimentação equilibrada e prática regular de atividade física”, orienta o médico.
Essas medidas não atuam apenas sobre o cabelo. Elas contribuem para o equilíbrio hormonal, reduzem inflamações sistêmicas e favorecem o funcionamento adequado das células, inclusive as envolvidas na produção de melanina.
Outro aspecto que merece atenção é o estado nutricional do paciente. Deficiências de micronutrientes essenciais podem interferir na saúde dos folículos pilosos e acelerar alterações capilares.
Carências de vitamina B12, ferro, cobre e zinco, por exemplo, já foram associadas ao embranquecimento precoce e devem ser investigadas sempre que a mudança de cor dos fios ocorre de forma repentina ou fora do padrão familiar.
Hábitos que impactam a saúde do cabelo
Além da alimentação e do manejo do estresse, fatores externos também influenciam o envelhecimento capilar. O tabagismo, por exemplo, aumenta o estresse oxidativo no organismo, prejudicando a função celular e a oxigenação dos tecidos, inclusive do couro cabeludo.
A exposição excessiva a poluentes e radicais livres segue a mesma lógica. Esses agentes favorecem danos celulares cumulativos, que afetam não só a pele, mas também a estrutura e o funcionamento dos folículos pilosos.
“Além disso, evitar tabagismo e reduzir exposições oxidativas excessivas ajudam a preservar a saúde do folículo piloso. Em casos específicos, a avaliação dermatológica é fundamental para identificar fatores associados e orientar condutas individualizadas, sempre com base em evidências científicas”, conclui o especialista.
A mensagem central, portanto, é de equilíbrio. O estresse pode, sim, influenciar o surgimento dos cabelos brancos, mas ele raramente age sozinho. Entender o próprio histórico familiar, adotar hábitos saudáveis e buscar orientação médica quando necessário são passos mais eficazes do que buscar soluções milagrosas para um processo que, em grande parte, faz parte do ciclo natural da vida.
Fonte: Portal Terra
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