A presença nordestina na cena da beleza do Rio de Janeiro é antiga e constante. Nos bairros periféricos, especialmente nas favelas da Zona Norte, ela aparece no sotaque, na técnica e nas histórias de quem vive do próprio talento. Um desses nomes é o do barbeiro e cabeleireiro Tawer Souza, natural de Natal, no Rio Grande do Norte, que há mais de dez anos mora na Favela do Jacarezinho e se tornou referência em um dos cortes mais emblemáticos da cidade, o chamado “corte do Jaca”.
Instalado na comunidade desde que chegou ao Rio, Tawer construiu sua trajetória profissional em meio às transformações urbanas e culturais do território. Hoje, atende diariamente moradores do Jacarezinho e clientes de outras regiões da cidade na TW Barber, espaço onde o “corte do Jaca” se consolidou como o serviço mais procurado, especialmente durante o verão carioca.
Nordestino, morador de favela e trabalhador da beleza, ele representa um fluxo migratório que ajudou a moldar o Rio contemporâneo. A estética urbana carioca, muitas vezes associada às comunidades, carrega influências diretas desses profissionais que trouxeram saberes, referências e persistência para o cotidiano da cidade.
“Estou no Jacarezinho desde que cheguei aqui, vim em busca de algo melhor pra mim. Comecei a cortar cabelo após um problema de saúde que me impossibilitou de trabalhar como frentista. Hoje estou melhor nesta profissão, onde sou feliz”, relata Tawer.
O corte que virou assinatura
O “corte do Jaca” é mais do que uma tendência passageira. Para muitos barbeiros da Zona Norte, trata-se de uma assinatura visual do Rio, associada à juventude, à música urbana e à identidade das favelas. Tawer explica que o estilo faz parte da rotina da barbearia e responde pela maior parte da demanda.
“O ‘corte do Jaca’ é um dos mais bonitos que eu faço. Ele é o mais pedido, faço diariamente. Aprendi vendo vídeos na internet”, afirma o barbeiro, que aperfeiçoou a técnica observando outros profissionais e adaptando o estilo ao perfil de seus clientes.
A clientela é diversa. Vai de moradores antigos da comunidade a jovens que atravessam a cidade para manter o visual associado ao Jacarezinho. O alcance do corte acompanha a circulação cultural do próprio território, que influencia moda, música e comportamento.
Além da rotina intensa de atendimentos, Tawer nutre o desejo de ampliar o impacto do próprio trabalho. Ele sonha em repassar o conhecimento adquirido a novos profissionais da beleza que vivem em comunidades do Rio, fortalecendo redes locais de formação e renda.
Preços variam conforme o território
A coluna Oxente, Rio! apurou que o valor do “corte do Jaca” muda de acordo com a região da cidade. Em comunidades do Rio, como o Jacarezinho, o preço costuma variar entre R$ 15 e R$ 40, dependendo do acabamento e dos serviços adicionais. Já em bairros da Zona Sul, como Copacabana, onde o corte é frequentemente solicitado por turistas e cariocas, os valores sobem e ficam entre R$ 50 e R$ 85.
A diferença reflete não apenas o custo de vida, mas também a forma como a estética da favela é consumida em outros espaços urbanos, muitas vezes dissociada do território onde se originou.
O que define o “corte do Jaca”
Mas o que caracteriza, afinal, o “corte do Jaca”? Barbeiros do próprio Jacarezinho explicam que o estilo ganhou força a partir da década passada e se consolidou com variações técnicas.
Para Yasmin, da Barbearia Novo Egito, localizada na Rua Quinze, no Jacaré, o modelo se popularizou por volta de 2010. “O ‘corte do Jaca’ ganhou fama em 2010. Ele sobe na orelha e desce na nuca. O original vem com a navalha e, em seguida, é harmonizado com pigmentação.”
Já Matheus, da Barbearia Parada Estilo, destaca que não existe um único padrão. “Tem o corte do Jaca mais baixinho e o mais alto. A gente navalha e vem graduando com pente até chegar no ponto que a gente quer”, explica.
Entre navalhas, pentes e trajetórias pessoais, o “corte do Jaca” segue atravessando gerações e territórios. A história de Tawer Souza mostra como a estética urbana do Rio continua sendo construída por mãos nordestinas, reafirmando a favela como espaço de criação, trabalho e identidade cultural.
Fonte: Exata
Foto: https://br.freepik.com/fotos-gratis/jovem-barbudo-cortando-o-cabelo-pelo-cabeleireiro-enquanto-esta-sentado-na-cadeira-na-barbearia-barber-soul_26262723.htm